
Hora de virar a página, ensaiar o sorriso mais bonito, recompor o coração e ensiná-lo a bater novamente.

Desculpe-me, amor. Talvez eu seja levemente incoerente, friamente exigente. De alguma forma a vida me fez assim. Pode ser pelo que sofri, as experiências que tive e os relacionamentos que vivi. Mas lhe digo com toda a franqueza que há no meu ser: não ficaria bem naquela sua prateleira de ipê. Não combino com a sua decoração, sinto que sou uma peça fora do jogo, uma carta que é desprezada pelos jogadores. Detesto me sentir dessa maneira, um sujeito sem predicado, uma oração sem objeto direto, indireto e substantivo. Sinto-me incomum. Sinto-me comum. Sinto-me esquecida no seu esquecimento. Lembrada na sua lembrança. Sou inesquecível, sabemos. Mas esqueço que você lembra e esquece. Atormenta-me e me enlouquece. Desculpe-me amor, infelizmente só sei te amar. Desamar. Compor-me. Recompor.

“Eu. Eu sou errada. Eu escolho errado. Eu escolho a dedo. Eu acho que as coisas são como penso que deveriam. Eu me jogo. Me envolvo. Me dou. Me estrepo. Dou a cara pra bater. Me abro. Me entrego. Me fodo. Me ferro. Me queimo. Me desgoverno. Perco as estribeiras. Perco o chão. Perco tudo. Só não perco a identidade. Porque eu sou eu. Sem medo. Sem pé atrás. Sem crueldade. Sem ficar cheia de dedos. Sem covardia. Sem hesitação. Sem pensar muito. Sem nada. Apenas vou. Apenas sinto. Apenas sei. Apenas quero. E quero mesmo…”

Ontem chorei. Por tudo que fomos. Por tudo o que não conseguimos ser. Por tudo que se perdeu. Por termos nos perdido. Pelo que queríamos que fosse e não foi. Pela renúncia. Por valores não dados. Por erros cometidos. Acertos não comemorados. Palavras dissipadas.Versos brancos. Chorei pela guerra cotidiana. Pelas tentativas de sobrevivência. Pelos apelos de paz não atendidos. Pelo amor derramado. Pelo amor ofendido e aprisionado. Pelo amor perdido. Pelo respeito empoeirado em cima da estante. Pelo carinho esquecido junto das cartas envelhecidas no guarda- roupa. Pelos sonhos desafinados, estremecidos e adiados. Pela culpa. Toda a culpa. Minha. Sua. Nossa culpa. Por tudo que foi e voou. E não volta mais, pois que hoje é já outro dia. Chorei. Apronto agora os meus pés na estrada. Ponho-me a caminhar sob sol e vento. Vou ali ser feliz e já volto.

Resolvi entrar com o pedido de aposentadoria: amar não é para mim. Amar é para os outros. Não quero mais amar, não quero mais viver em função de alguém que sente por mim uma coisa confusa e indefinida, mas que, definitivamente, não é amor.

A gente precisa viver o hoje com toda a força do mundo, pois o amanhã é uma interrogação.